Luiz Edmundo Alves 
     

    O RIO 

    Ronald Claver 

    (nas águas do Jequitinhonha)  

    Adentrando o País da Pedra  
    O Jequitinhonha risca  
    A paisagem  
    Contornando mineral a fome  
    Das Gerais  

    Deus é invisível  
    Seu rosto se multiplica  
    Nos olhos tristes do Vale  

    Deus é cego  
    De uma ceguez de espreitar  
    Nas frestas  
    O olhar mágico da dor  
    De dormidas insônias, noites  
    Entre o barbeiro e o pernilongo  
    Perfazendo o ciclo do sono  

    Um menino no burro  
    Dois meninos no burro  
    A rua que continua  
    Os olhos, a solidão  
    de caminhar dois olhos no burro  

    Deus é Barro  
    Nas mãos de Zefa*  

    Deus é Cristo  
    No formão de Adão*  

    Nestas águas Jequitinhonhas  
    Deus é o esboço  
    Do homem  
    Seu perfil e margem  
    Sua violência e paisagem  

    Deus é água  
    Na planície rasa  
    No rio de asas  
    Parcas  

    Uma canoa se curva  
    Duas conoas curvam  
    O rio  
    O rio se curva  
    Diante da paisagem  
    E da pedra  

    E o Jequitinhonha segue  
    Sinuoso correndo a liberdade  
    das águas e dos homens  
      

    * Artesãos de Araçuaí-MG  

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