CONCERTO PARA ARRANHA-CÉUS
Dissipações na bruma da tarde: a cidade me enerva ante a selva monolítica. Uma
geografia sinistra nesse ambiente retórico de fumaças. Fuliginosa é a manhã que em
vão aguardo. E mais que estuprar os tímpanos, um concerto de vozes metálicas e ruídos
cambiantes se sucedem inconscientes. È uma fera enjaulada na solidão de muitos
ninguéns. Os homens deliram na miséria recalcitrante de cada dia. Ruas, avenidas, becos
e vielas não escapam à aquarela insólita: artérias de cinza e enxofre, canais
divergentes onde fluem rios de vivos mortos que se entrechocam e não se olham. Essa longa
convulsão de anonimatos, pulsações de auroras que não vingam, turismo de urubus sobre
as lixeiras, gente como feras se nutrindo do inservível, poluição de semáforos e
assembléia de pedintes. No abril em que me espelho, a metrópole regurgita seus
fantasmas, labareda e carnificina nos rostos pressurosos dos meus pares. Somos feras
intangíveis nessa coreografia de degredos.
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