Ronaldo Cagiano
REFLEXÕES SOBRE
UM RIBEIRÃOSaber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como água.
Jorge Luis Borges
Que homens hão de nascer
às margens do antigo rio,
se apenas há um leito
onde só pulsam
cardumes de solidão?
Eu não posso te invocar
(solene ou angustiado),
ribeirão Meia Pataca:
por onde corrias incólume
um outro rio percorre
trazendo sinais estranhos,
da dor que os homens plantaram
em sua calha indefesa.
De outra sorte,
noutros tempos & paragens
esta veia espalhou boatos
de ouro e diamantes.
Hoje, cansado e com mágoas,
receptáculo de horrores,
tuas margens redesenhadas,
teu leito assoreado de pruridos,
remetem-nos a um tempo
de fauna e flora esgotados
e invasões deletérias.
Esse rio guarda memórias
que o progresso camuflou:
pertinaz testemunha
de lutas e desvarios,
duto de miseráveis fuligens,
veia aberta ao insano progresso.
Rio que corre em mim,
espalhando.