RESQUÍCIOS
Ronaldo Cagiano
E o rio remonta seu curso,
dobra suas velas, recolhe suas imagens
e se interna em si mesmo.
Octavio PazNas águas do velho rio
navegam barcos da infância
que lancei rumo às estrelas.Ah, como dói saber
que o menino ainda sobrevive
na espera infundada dos sonhos.
Sobre o beiral da ponte
que atravessa a cidade,
perco-me no espelho que me espia
e diviso outras miragens.Onde ancorei a esperança?
E em que ponto naufragou a utopia?
Indago às novas torrentes,
mas o murmúrio do leito imune aos meus apelos
denuncia o imponderável que há nas coisas.Volto-me para a retaguarda de fastios,
meus olhos testemunham ruga e mofo
e em todo o canto algo deduz que o tempo,
esse mar adiante das remotas águas,
engoliu a minha história.