julio saens  

 

poemas de

Ronaldo Werneck

 

A VOZ(*)

"Quem, se eu gritasse,
em meio à legião de anjos
me ouviria?"
Rainer Maria Rilke

noite e dia
na fina cama sem fim
16 horas dormia
o mar em frente
franja de azul que ele não via

sobre seus lençóis brancos
de dólares e tormentos
dois mil e quinhentos cada
dia trocados cada noitedia

o mar em frente
mas não mais o percebia
não mais my way
o mundo não mais
era do seu jeito
jamais seria

frank apagava
e enquanto dormia
mamãe gritava
mas mamãe a voz
não mais ouvia

nem podia
nas profundas também sumia
a velha dama vagabunda
e estranha na noite que era dia

a voz por mamãe clamava
papai também por mamãe
gritava na cama simples
enquanto morria e se agarrava
a velhos lençóis molhados

vozes frias ao vento berradas
dia e noite em desalento
noite e dia frank apagava
papai morria
vovó não ouvia

(*) Em seus últimos meses de vida, Frank Sinatra dormia
16 horas/dia sobre lençóis italianos de US$ 2.500,00,
trocados e estendidos a cada manhã na imensa cama de
sua mansão, cujas janelas abriam para o mar da Califórnia.
Delirava o tempo todo, gritando pela mãe, morta em 1977. 


bárbara by starlight

"Bárbara bela
do norte estrela"
Alvarenga Peixoto

ensinaram-me o céu e mais
amor, mar que da noite vem
véu vândalo que se desvela

em vão: amor, meu confessor
vaga cintilação de púbis
e pênis-vida toda láctea

toda via vai e se esgota
ao norte-órion no olho
em cruz: rasgo no escuro, marco

maior na ursa que se esvai
ao sul - scorpio na rota:
cisco na libra, barco, ilha

ensinaram-me mar e céu
amar, amor, que se ilumina
- estrela do norte: estrela


íris-retina

viu o mar
e sssssilva
assim
o poeta joaquim
íris-retina!
íris-retina!

que viva joaquín!
joaquim palmeira
de minas


O GOLEIRO ATÔNITO

o mundo
                  em suas mãos
        gira
                 em torno
                    do sol
solta-se
                    além
             dos pontas e dos pés
       e
volta
               gol
               dolo
               tento
                        num só revés
súbito
e
violento


Dedicatória 

Para Regina, Regininha
de olhar tão verde
e fluminense
tão doce tão de antigamente
tão Regininha que se cataguasense
fosse — ou não fosse — e Mauro
Humberto nos anos vinte a visse
nela veria, boquiaberto,
sua mocinha — já disse
não disse? — aquela vivaz
e bela, a do galã audaz e ardente
perdido, perdidamente
caído pelo "olhar Regininha"
aquele: farol, lanterna, lanterninha
que pipoca e pipoca dentro de mim:
viva diva veraz vivo dilema
de estrela, da tela estrela
estrela sim, estrela
de sonhos vivos, de cinema.
 
De Tempos de Mineração
Rio, agosto de 98

Poeta e jornalista, 30 anos de Copacabana, Ronaldo Werneck é mineiro de Cataguases, para onde voltou na virada do milênio. Autor de Selvággia (2005) e
Noite Americana - doris day by night (2006). roneck@ronaldowerneck.com.br