NAVEGAR É PRECISO,
VIVER NÃO É PRECISO

Por Ronaldo  Zenha

Julio Saens

O navegador faz uso de instrumentos precisos para se localizar e dar ruma a seu curso. O poeta, ao
contrário, traz em seu discurso a possibilidade metafórica de um deslizamento incessante sobre a cadeia
significante. Se o navegador é prisioneiro dos instrumentos, ou seja, só enxerga seu destino a partir destes,
o poeta não se preocupa em ver, pois seu intento é viabilizar qualquer discurso, ou melhor, aviar um
desejo.
  Portanto, me apropriando dessa via poética, proponho dar sentido de precisão, exatidão, à fala do poeta
quando ele diz: "Navegar é preciso, viver não é preciso". Mesmo reconhecendo um outro viés, o da
necessidade, que também nos parece apropriado, optamos por disparar, dar sentido ao que é exato fora da
exatidão.
  Dessa maneira, se as máquinas acionadas nos dão a precisão do vôo seguro de um Boeing cruzando os
céus em noites escuras, o coração do "Arqueiro", ou do "Artilheiro", não se engana, ou melhor, treme
fora das quatro linhas e não ousa o vôo noturno e seguro.
  Se as máquinas ficam com a precisão britânica ou o dito popular de que "mineiro não perde trem", a vida
vai muito mais além: alcança as planícies e os vales que os trilhos não percorrem, e se alojam nos mais
recônditos sentimentos, do mais isolado eremita ao mais comunicativo dos apresentadores televisivos.
Assim percorre o discurso do poeta: aquele que desliza, sem precisão, as tortuosas linhas de um desejo.
Desejo que, muitas vezes, ele mesmo não se dá conta. Mas, com certeza, não está amarrado a nenhuma
métrica científica, a não ser aquela que tão somente diz respeito ao seu coração.
  Por isso o poeta diz:

O BARCO
MEU CORAÇÃO NÃO AGUENTA
TANTA TORMENTA

  Algo escapa a precisão científica e a certeza do experimento. O barco não é o limite, mas uma precisão, e
o coração transborda e se inquieta. É essa inquietação que faz com que o sujeito se depare com as suas
incertezas e o seu vazio, próprio do que é humano; e é ai que se produziram as paixões e os amores.
  "Amor", palavra chave que Sigmund Freud vai se apropriar para construir sua concepção teórica sobre o
parelho psíquico, o homem e sua relação com o outro, saber ao qual nomeou de Psicanálise.
Aqui, não nos interessa precisar se se trata de uma ciência, se um saber, ou se apenas um engodo. Para
nos, o importante é saber que o que está em jogo é algo que navega sem bússola, mas que tem fonte,
objeto e direção, essa coisa chamada Pulsão.
  Apesar de Freud ter trilhado a métrica precisa da medicina, ávido pelo conhecimento e comprometido
pelo rigor, buscando nos laboratórios de neurofisilogia os instrumentos precisos da navegação que
apontasse uma saída amparado no reconhecimento do Outro ( um Outro ciência e saber da verdade).
Porém, sua paixão pelo rejeito, que esse mesmo saber/verdade produzira, falará mais alto; por isso,
evocará o amor para traçar as tramas romanceadas das relações do homem.
  Verá, então, em uma estranha patologia (histeria) relegada pela medicina ao status de simulacro, uma
verdade obscura e destorcida. Primeiro com a hipnose, instrumento muito utilizado naquela época para
tentar extirpar os estranhos sintomas que a medicina convencional não conseguia, buscando pistas que lhe
dessem a trilha mais adequada para percorrer a verdade desse discurso.
  Com a hipnose, nos parece que Freud, ao fugir das amaras precisas das ciências neurofisiológicas, caia na
armadilha fantasiosa dos Mitos e crendices supérfluas, no que esse termo possa sugerir de superficial ou
artificial. Ledo engano; Freud descobrirá com a hipnose do que a definitiva influência sugestiva do
discurso do Mestre. Se o ideal do eu possibilita que o hipnotizador traga, junto com seu discurso, o
recalcado do hipnotizado, não será esse o discurso sólido e desvelador para o sujeito. O desvelamento do
sintoma feito desse modo terá fôlego curto, perna curta, como diz o dito popular sobre a mentira. A
verdade do sujeito se encontra em outro lugar.
  Freud não se desilude propriamente da hipnose, apenas identifica seus limites e impropriedades no
exercício da psicanálise e na busca do desvelamento dos sintomas histéricos. A hipnose nunca foi uma
técnica psicanalítica, nasceu muito antes com Mesmer, Forel, Charcot e Bernheim. Não que tudo que a
psicanálise evoca seja pura invenção freudiana, não se trata disso, pois ele mesmo refere ao efeito
terapêutico da palavra como sendo uma das mais antigas práticas psicoterápicas. Trata-se apenas de
pontuar aquilo que toma forma em um outro campo: no campo do dito pelo não dito, de um cogito não
cartesiano, que inova e rompe com as tradições científicas de então.
O DIA
O MARCO
MEU CORAÇÃO
O PORTO
NÃO
NAVEGAR É PRECISO
VIVER NÃO É PRECISO
  Se Freud deu início às suas experiências pela via da hipnose, foi justamente por aí que ele, por um
tropeço, se viu na obrigação de escutar os sintomas que se insinuam pelos interstícios da fala. Um sintoma
falado por dramas romanescos, sustentado por tramas amorosas que o homem tece em seu embate
existencial, seja na família ou no social. Relação amorosa que reproduz, através da fala, os romances
desse sujeito que fala.
  Que relação seria essa que traria luz a uma nova terapêutica para esse sujeito aprisionado no saber médico
como ator sintomal? Relação transferencial, ou melhor, "amor" de transferência. Ali, onde o sujeito
deposita todo o poder de sugestionabilidade, e que proporcionará tanto a certeza do discurso do outro, o
hipnotizador, como a verdade do desejo de quem fala. "Talking Cure" (cura pela palavra), a magia é
desvelada e vira técnica.
  Sim, o analista faz uso desse lugar, mas não pela força persuasiva da sugestão, e sim pelo convite, árduo e
vibrante, como a experiência de uma paixão sustentada no ar por um fio imaginativo e fantasmático, que
enreda analista e analisante em uma e mesma trama, onde o convite que se faz é a travessia,
desvelamento da trama dos sintomas, distorções muitas vezes deturpadas de um desejo.
  Portanto, o discurso enganoso da histeria ganha ouvidos, ou seja, deixa de ser puro engodo e passa a
revelar uma verdade, a verdade referente à realidade psíquica.
  Eis aí a indicação da diferença entre confissão e associação livre: se na confissão o sujeito persegue um
perdão por intermédio da purgação de uma culpa, na associação livre o que não está em jogo é o
julgamento moral, mas a busca dos caminhos das pulsões inconscientes, que se explicitam em atos falhos
e chistes.
  Por outro lado, se na hipnose o que se pretende é afastar os sintomas, na psicanálise o que se faz é um
convite para que o sintoma fale. Se as terapias da consciência trabalham com o intuito de proporcionar
bem estar ao paciente; a psicanálise propõe que o mal estar fale do lugar de onde vem, e daí fazer surgir o
desejo.
  Não adianta extirpar o sintoma, extrair com incisões cirúrgicas precisas o nódulo cancerígeno, pois que
senão suas raízes invisíveis edificarão novos nódulos e novos sintomas emergirão dos lugares menos
esperados.
  Contar com essa imprecisão precisa da fala é o trabalho "mágico" do analista: equilibrar-se entre o
discurso da realidade psíquica e as pistas do inconsciente, sem se contaminar pelo exercício fácil da
sugestão.
  Esse barco, aparentemente sem governo (pois a pulsão não usa bússola) , tem um leme, portanto, uma
direção. E é essa, a de revelar o desejo inconsciente, a direção da cura. Trajetória de uma navegação nem
sempre tranqüila. Pelo contrário, ao assumir essa posição, de uma escuta do lugar do sujeito suposto
saber, como nos diz Lacan, é assumir o risco das intempéries da desconhecida meteorologia do
inconsciente.

Ronaldo Zenha é psicólogo e   poeta, autor de ALLÁ VA ESO, poemas, coleção Poesia Orbital, 1997.

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