Tanto
Rosário Fusco (1910-1977)
Gosto de ouvir uma
sanfona bem tocada...
Nem negros estradeiros
na pinga, nem capinas, nem apanhas
[ de café,
nem o chiar tristonho
dos carros de bois descendo a encosta,
nem cantigas dolentes
de negras que lavam
nas lajes do rio.
Nem barulho, nem
ruído. É o jogo de malha na estrada
[ limpinha
sem perigo de Fordes,
e o buso, e a bisca, e o marimbo
[ no alpendre,
com o administrador
da fazenda;
e o café
lavadinho secando no terreiro - que é um gosto se vê,
e o latir brabo
dos cachorros caseiros, dos cachorros que latem
quando passa estrangeiros
à beira da estrada.
Nem o "eia" imperativo
dos carreiros peitudos carreando,
nem jardins, nem
cinema, nem o rádio fanhoso da gente
[ da cidade...
Mas a sanfona dolente
que enche de desejo o sangue
[ dos mulatos,
mas o vento musgueiro
dos arrozais loiros, cacheando,
mas a visita das
moças da cidade, moças esganadas por frutas,
moças que
linham com a gente só por causa de mexericas
[ graúdas...
Este é o
meu domingo.
Domingo mineiro,
domingo bom, domingo da fazenda
onde passei minha
infância...
Nem trabalho, nem
ruídos, nem o tinir das lampianas,
nem o aboio triste
dos vaqueiros, nem tocaias, nem brigas,
nem capoeiradas,
nem nada...
Mas a alegria e
o descanso das obrigações cumpridas
e o riso - criança
da satisfação das coisas...
*publicado
em 1927 na revista Verde, de Cataguases, este
poema integraria
o livro POEMAS CRONOLÓGICOS, de 1928.
Leia OS VERDES
ANOS, artigo de Delson Gonçalves Ferreira