2 poemas de
      RuyEspinheiraFilho

 

CANÇÃO DOS
CHOPES DE MAIO

 a André Seffrin

Aqui, nos chopes de maio,
há uma sugestão de rosas
ao luar — e vasta ânsia
por mulheres suntuosas!

Aqui, em ouros e espumas,
me sonho alto, como alguém
bravo de vencer o mar
e de se chamar Ninguém.

Aqui, em goles preclaros,
bebo aos que não voltam mais
(como jamais haverão
de chegar a nenhum cais...).

E brindo aos claros amigos:
que seja o chope alegria
dia e noite; e, de maio a maio,
traga-lhes sempre a magia

— entre seus ouros e espumas —
de uma sugestão de rosas
ao luar — e vasta ânsia
por mulheres suntuosas!



 CANÇÃO DA MOÇA E DO SONHO

a Neyla, in memoriam.

Com que sonhavam, no baile,
seus olhos semicerrados?

Há mais de quarenta anos
foi tirado este retrato:

a moça em vestido casto
e luz de sonho no olhar.

Com que essa moça sonhava
nesse intervalo de baile

e de maneira tão clara
que os olhos quase fechavam?

O que — ou a quem — contemplava
o sonho no seu olhar?

Há mais de quarenta anos,
como era serena a face

voltada para esse sonho
(moça e sonho: face a face).

Que sonho nela sonhava,
e que tanto a iluminava?

Não importa. Importa a face
doce; e, nos semicerrados

olhos, a canção do sonho.
Importa que houve um sonho

e o resplendor dessa face
— antes que o tempo passasse.

 

Ruy Espinheira Filho nasceu em 1942, baiano, reside em Salvador onde é professor universitário. Tem dezenas de livros publicados, dentre eles: Memória da chuva Editora Nova Fronteira e Poesia Reunida e Inéditos, pela Record.
refpoeta@terra.com.br

 

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