RUY ESPINHEIRA FILHO
Memória da chuva
Talvez o Espírito de Deus pairasse
sobre a face das àguas,
mas só o que ele,
o menino insone,
viu
foi o escuro e as gotas que caíam
num murmúrio.
Foi só
o que viu
e ouviu,
além da sirene do Cine Glória
em seu alarme
e a avó falando baixinho à Virgem Santíssima,
e os lobisomens no vento,
e na imaginação o açude
solto nas ruas,
na praça,
subindo até tanger o sino da igreja
do Divino.
Talvez o Espírito de Deus pairasse
sobre as nuvens,
mas não estava lá quando veio a manhã
e as nuvens se esgarçaram
e o azul foi alagando
o céu,
e o açude respirava
serenamente
entre as margens pantanosas e a muralha de pedra.
E todos estavam felizes.
Todos.
Menos um:
aquele,
o menino insone,
que perdera seu reino submerso.
voltar