RUY ESPINHEIRA FILHO
Às vezes
Às vezes é isto: não adianta nada
tentar cerzir a alma: não há mais
vento para essa vela, nem o copo
de mar que outrora esperançou o Jorge
de Lima. É isto: às vezes tudo engoiva,
como escreveu Drummond. E então é noite.
E tudo é noite, como nos vergasta
Mário de Andrade num sussurro vasto.
Que fazer? Antes uma boa morte,
como dizia a paterna avó?
( Que Deus a tenha.) Sim, é isto, às vezes.
Mas só às vezes. O que é um avesso,
apenas. Isto penso. E então suspiro
ampla, profundamente. E eis que essa brisa
inquieta os portulanos, chama o dia,
que renasce e semeia de ondas e ilhas
e corais e sereias o que há em torno
de mim e em mim. Pois, seja como for,
preciso é continuar a viver, como
resignou-se o Àlvaro de Campos.
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