juliosaens-agm.jpg (15287 bytes) SÉRGIO FANTINI

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PROSA
(peão de trecho)

(trecho do livro  DIZ XIS)

A mulher da portaria avisa que me trocou de quarto.
Tomei um banho e liguei a tv. A cena em close não era
muito explícita — peguei o filme começado. Vá alguém
entender porque filme pornô me faz pensar em minha
morte.
A maneira mais recorrente é ganhar uma bala perdida na
cabeça. Meu corpo espatifado no chão após um vôo por
vinte andares. Um eu barbado com o cano de uma
espingarda na boca. Cirrose hepática. Eu nu no caixão,
sorrindo. Garrafões de vinho no meu velório. Música, um
samba-canção na vizinhança, alheio ao evento. Uns
maconheiros da velha guarda. Antigas namoradas e amantes
desesperadas, para dar um clima romântico. Depois do
enterro, as pessoas dançando na rua, cantando. Lágrimas
molhando o calçamento irregular de minha terra. Que as
crianças corram pelo cemitério, poetas recitando versos
ao pé da cova. Marquinhos e seu sorriso macabro, Zé
Alexandre com uma mecha de cabelo sobre os óculos, Leila
saltitando feito uma ninfa endiabrada, o Mário com um
soneto repleto de aliterações, Byu lendo um longo e
outonal Neruda, Serjão ecoando seu vozeirão entre as
lápides frias... Só de pensar nesses malucos em torno de
minha cova, fazendo essa festa toda, me arrependo de ter
morrido! E depois, uma cervejada no Márcio, até alta
madrugada, quando alguém, copo na mão e cigarro na
outra, olhos quase fechados, pergunte: “que porra a
gente tá comemorando?” E quase ninguém saberá a resposta.
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(trechos do livro CADA UM CADA UM)
1-

Baby, acho que vou morrer.
Acabo de chegar da festa, misturei bebidas e... você
sabe, eu não posso com isso.
Por isso, tome algumas providências: um anúncio imenso
na imprensa, várias coroas, o caixão mais caro.
Ligue pra todo mundo.
É preciso fazer muito barulho com a morte.

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2-


Baby, acho que vou morrer.
Ando pensando em me matar. Esqueça o que dizem as
pessoas.
Mas, por favor, não deixe de convocá-las para a festa no
cemitério: outono, vai ser lindo.
Meu cachecol ao vento.

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(trecho de RUGAS)

19h10

Agora vocês estão sentados frente a frente. Sua mão
direita vai até a taça. A dele não se vê, segura o
cigarro sob a mesa.

Um fio invisível mantém seus narizes apontados um para o
outro.

Mas seus olhares, não. O dele vê o cinzeiro cheio; o
seu, nada.

Há dois terços de ar na sua taça; um, na dele. Sete ou
oito guimbas no cinzeiro. Mais de três quartos de vinho
na garrafa. Incontáveis marcas redondas sobre a fórmica.
Dezoito cubos de queijo no pratinho. Três palitos
fincados neles e outros cinco, caídos. No seu maço, há
mais de dez cigarros; oito, no dele. Um pouco de cinza
misturou-se com algumas das marcas das taças. Uma caixa
de fósforos, grande, aberta, encostada na parede. Muitos
palitos queimados no cinzeiro; dois, soltos na mesa.
Entre a parede e o teto, fumaça.

O teto é branco, cortado pelo fio preto da luminária.
Abaixo dela, a almofada de couro vermelho.

No meio da sala, um par de sapatos.

No som, um sambinha, volume baixo, é acompanhado por ele
que, perdendo o ritmo, toca a taça antes de tocar sua
mão. Toca e fica.

Agora, dois pares de olhos se fitam.

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(trechos de SUÍTE BAR)
1-
a mulher vulgar está ajoelhada no chão. Os tacos foram
mal assentados, seus joelhos ficarão marcados, vai doer.
Seus seios são grandes, enchem o sutiã azul claro que
tem um dos ilhoses quebrado. Suas costas largas tem
algumas marcas, parecem pequenas cicatrizes. Pode ser
alguma doença de pele, quem vai saber? A calcinha que
está usando tem cor indefinida, creme, bege; parece ser
suave, seda, talvez. Ela escondeu as mãos sob o lençol e
aperta com força o colchão protegido por um plástico
marrom – por isso não se vê a cor do esmalte. Agora
enfio meus dez dedos em sua cabeleira tingida de amarelo
enquanto noto um pequeno furo na meia que aquece meu pé
direito.

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2-
Ele parecia ter mais de 30, meio careca, forte, branco,
olhar de boi manso. Ela, com os cabelos pretos soltos,
morena, vestido longo (azul, flores amarelas) não se
revelou de cara.
Foram pra mesa perto do banheiro. Uma cerveja, dois
copos e um cinzeiro. Tocaram os copos em silêncio. Não
pareciam tristes ou preocupados, apenas viver aquela
fase em que um casal já se falou tudo o que tinha pra
falar.
Ele tirou uma revista e uma caneta da bolsa dela e
começou a fazer palavras cruzadas. E ela começou a olhar
pra mim, esses vizinhos que bebem cerveja sábado de
manhã.
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3-

Rita descobriu que era ninfomaníaca aos 15, durante uma
sessão de terapia, e isso foi muito pra cabeça dela
porque era virgem. Até hoje não entende os caminhos
tortuosos que o cara (é assim que se refere ao médico)
percorreu pra chegar a essa conclusão, claro que trepou
com o primeiro que apareceu. Aos 20 pensou em processar
o cara porque era até bastante seletiva com os homens
que levava pra cama, e nem fazia tanta questão assim.
“R & R”, ela bordou nas toalhas de banho, uma
coincidência que lhe agrada, diz que faz “rrrrrr” no
ouvido dele quando está satisfeita. Comprou o Fuca assim
que passou da rede pública para a particular, gosta de
dirigir, queria viajar mais vezes, mas o Rafa prefere
ficar em casa nos fins-de-semana, cansado demais. “Mas
nem agora que é chefe?” “Nada”, ela responde depois de
acender mais um cigarro, o negócio dele é arrumar coisas
em casa, desentupir pia, ouvir o rádio, às vezes ir ao
campo e sonhar com a porra daquele táxi.

Eu que sempre fui apaixonado por papel, tipografia,
fotolito, letra-set...
Que amo o cheiro de livros, tintas, revistas, jornais –
novos e velhos...
Que discuto diagramação e projetos gráficos de
cartazes, panfletos...
Que colecionei durante anos folhetos recebidos nas
ruas...
Que visito gráficas como se templos...
Que tenho ciúmes dos livros – quando empresto...
Que lamento aqueles de orelhas dobradas e rabiscados...
Que os encapo como nos tempos de colégio...
Que tenho dó de jogar jornais no lixo...
Que queimei pestanas nos últimos 30 anos em milhares de
textos diversos...
Que datilografei, imprimi – mimeógrafos a álcool a tinta
off-set de mesa – dobrei, grampeei, aparei, envelopei,
subscritei e vendi mano-a-mano meus livrinhos de
poesia...
Que resisti por anos a comprar micro, instalar internet,
aprender a usar...
Que todo dia olho a caixa de correio ansiando por
convites, propaganda, livros, revistas, carta de amigo
(só as contas continuam chegando ali)...
Que, revisor de editora, passava mais tempo na gráfica e
no departamento de arte...

Estou ainda martelando os dedos na minha fiel Olivetti
Studio 44 para estar agora nu...
somente bytes na sua tela...


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livros:
entre 79 e 85, sete, de poemas
em 91, Diz Xis, novela
em 92, Cada um cada um, textos
em 97, 79/97, poemas
em 2000, Materiaes -prosa (edições Dubolso)

em 2003, Coleta Seletiva, poesia, (ciência do acidente)
zines:
entre 76 e 82, O Cancioneiro e Pro Domo Mea
poster:
em 78, SO BLUEs
antologias:
em 85, Revista Literária da UFMG
em 86, Novos Contistas Mineiros (Mercado Aberto),

Contos Jovens (Brasiliense)
em 2001, Geração 90 – Manuscritos de Computador
(Boitempo)

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