Tanto 

               
     MAXIMINO - O ateliê  - Guache e nanquim, 1988
                       O S E N H O R
                       DOS SONHOS

                                                    um conto de Sérgio Vale

            Naquela hora do entardecer, o senhor Ribeiro
            tinha a forte impressão de que seu carro
            apenas se afundava na noite nascente a cada
            quilômetro vencido da estrada. Era a primeira vez,
            em dois anos, que visitaria o filho. A idéia da viagem
            o aborrecia tanto quanto o rádio que se interrompia
            ou se enchia de chiados toda vez que uma curva
            contornava algum morro. Se fosse possível, teria adiado
            novamente  a visita. Queria estar com o filho, é bem
            verdade, mas não gostava de estar sendo enganado
            desde o dia em que o garoto ingressara na Faculdadde
            de Artes.
                   Em sua época de universidade, o próprio Ribeiro
            sentira a forte vocação de ser um artista plástico. Por uns
            tempos sua vida se moveu por este intenso desejo. A família
            não possuía meios suficientes e, por fim, pareceu tolice, a ele
            e aos seus, firmar os pés em qualquer carreira que não
            apontasse um rumo claro para a vida. A decisão se mostrou
            acertada, já que aos poucos construiu-se prático e rico, o
            homem que planejara ser. Sem  nunca abandonar o gosto
            da juventude, as paredes de suas casas, cada vez mais amplas,
            foram sendo tomadas por uma valiosa coleção de obras de
            arte. Envolvido por este ambiente, cresceu o filho de Ribeiro.
            O olhar vivo do moleque sempre voltado àquele pai ao seu
            gosto refinada pela arte. Ribeiro tomou com satisfação e
            naturalidade a decisão do filho em ingressar na Faculdade de
            Artes. De pronto, resolveu bancar a aventura do filho, dando-lhe
            a oportunidade que nunca tivera.
                   Agora sabia que o filho o enganava, utilizando a boa mesada
            para não se preocupar com nenhuma arte senão a de bem viver.
            Foi com tal sorte de pensamentos que Ribeiro trocou a noite da
            estrada pela claridade falsa da  cidade. O esboço de mapa que
            havia recebido serviu para orientá-lo através das largas
            avenidas até entrar numa rua estreita e achar o prédio simples
            que onstentava na fachada o mesmo número indicado no
            recorte de papel.
                   Subiu quatro lances de escadas, tocou a campanhia e viu a
            porta se abrir. O filho surgiu , com um largo sorriso, para abraçá-lo.
                    - Entre papai! - exclamou.
                    As mãos de Ribeiro suavam. Ele examinou toda a extensão
            da sala de móveis modestos, com uma estante repleta de livros e
            paredes nuas. O filho o cobria de gentilezas.
                    - Paulo, onde estão os seus quadros?
                    - Mas é claro - respondeu  com entusiasmo, sem perceber o
            tom seco da pergunta do pai. - Sente-se um minuto.
                     Paulo sumiu pelo corredor e voltou trazendo uma, duas, três,
            quase uma dezena de telas assinada com o nome de família.
            Arrumou-as lado a lado, tentando superar a falta de espaço,
            preparando a exposição para um exigente colecionador.
            Ribeiro mal podia acredita naquilo. Cometera o maior dos enganos:
            seu filho era um artista que transboradava talento. Com os olhos
            vermelhos puxou-o para seu lado ; depois, cheio de satisfação,
            passou a decifrar a pequena mostra. Cenas figurativas de interior,
            cenas de um ateliê, compstas num estilo forte e próprio. As telas
            estavam mergulhadas numa atmosfera cinza e em todas elas surgia
            um mesmo rosto masculino, maduro, que em sua morena obscuridade
            pareceu estranhamente peculiar a Ribeiro.
                       - Quem é esse homem que está nos quadros ?
                       -  É alguém que inventei, um pintor que talvez habite o mundo
            dos sonhos - disse.
                       A explicação vaga de Paulo não condizia com a riqueza de
            detalhes e a aparente complexidade retratada tantas vezes; para o
            orgulhoso senhor Ribeiro, ela soou satisfatória. Ribeiro estava em paz
            com sua consciência e Paulo, sem se saber responsável pela alegria
            do pai, teve em seu velho, pelas próximas horas uma ótima companhia.
                       Naquela noite, ao contrário do previsível, o sono de Ribeiro foi
            agitado e desagradável. Em sonho, visitou um ateliê. Telas,  pincéis, tintas
            e solventes espalhados por todos os cantos. Um homem pintava sob
            a fraca iluminação. Ribeiro se aproximou e logo reconheceu a figura dos
            quadros de seu filho. Sem a proteção das sombras aquele rosto perdeu
            seu inquietante mistério.
                        - Você está mais velho, seu rosto tem novas marcas, mas
            finalmente eu o reconheço - disse Ribeiro.
                         - Nós dois estamos mais velhos - retrucou o outro.
                         - Porque você parece transtornado ? - disse Ribeiro com ironia.
                         - Vejo que produziu uma centena de bons quadros, exatamente
            como pretendia.
                          - Minha tristeza não é por mim, é por você. Eu fiz o que deveria,
            mas e quanto a você? Por mais que eu tenha indicado seu caminho, há anos
            você me expulsou de seus sonhos e correu contra o destino. Agora exige de
            Paulo o que você não realizou. Pintar era o seu destino.
                            Ribeiro acordou com uma sensação de amargor, graças à
            imagem incômoda daquele rosto. Ainda entre o sonho e a vigília, ao
            despertar, teve, pela primeira vez, a impressão de que o medo de visitar
            Paulo era o medo de si, o medo de enfrentar um destino não cumprido.
            "Apenas um sonho esquisito", repetiu mentalmente. E quando a face
            morena já se desvanecia na memória, pensou: "Apenas um sonho inspirado
            pela imaginação de meu filho, que absurdo me preocupar!" Mas ficava a
            pergunta: qual dos dois, ele ou o filho, tinha sonhos próprios? E qual
            vivia os sonhos do outro?
                     No café da manhã com Paulo, Ribeiro quis deixar o quanto antes
            aquele apartamento e voltar para o abrigo de sua rotina.
                      - Não pense que já vai embora - sentenciou Paulo. - Você ainda
            não conhece meu estúdio.
                      Havia mais quadros? mais retratos daquele homem e seu mundo
            inexistente de sombras!
                      - Aluguei uma casa, onde passo as manhãs pintando. Minhas aulas
            são à tarde. Faço questão de que conheça o local, afinal é o seu dinheiro
            que o mantém. Em breve espero começar a vender meus quadros, e aí a
            situação vai mudar.
                       Pai e filho caminharam pela rua ensolarada. O calor da manhã já
            parecia sufocar. Chegaram a uma casa, modesta como o apartamento,
            ainda que mais espaçosa. Uma colega do filho pintava na sala principal;
            provavelmente outros artistas também usavam o espaço.
                       Paulo indicou seu "território" na casa e fi apontando suas telas,
            fazendo pequenos comentários  acerca de cada uma. A ansiedade de
            receber a visita do pai passara; podia mostrar sua obra om confiança.
            O mesmo talento visto nas telas escuras da noite anterior. Desta vez, os
            olhos do pai refletiam quadros com cores vibrantes e temas variados,
            libertos como o próprio artista. Vendo a surpresa de seu velho, Paulo
            explicou que as telas de seu apartamento pertenciam a uma fase anterior,
            superada, que correspondeu ao período logo posterior à vinda para a
            faculdade.  Na época, ainda não tinha uma visão clara do caminho
            artístico a ser seguido.
                         Ribeiro enxugou a testa. A colega de seu filho lhe trouxe um
            copo d'água. Os três sentaram-se para conversar; o peso e o calor
            e a aflição do ar foram aos poucos se desfazendo. Mantiveram uma
            conversa tranquila sobre arte e planos futuros. O entusiasmo dos dois
            jovens trouxe boas recordações a Ribeiro.
                         Rodeado pelo colorido das obras do filho, o senhor Ribeiro
            percebeu que em breve Paulo encontraria o sucesso. Mas seu
            pensamento foi além: no campo da arte, Paulo já percorria terra que ele,
            Ribeiro, jamais teria alcançado.
             

            Sérgio Vale é contista e romancista,
            autor de A MELANCOLIA e O LIVRO K.

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