Uma mulher que
dorme mal de noite. E acordada, no escuro, pensa em coisas ruins. Como neste momento.
Tem uma porção de coisas ruins em que pensar.
Sua solidão, por exemplo. Mora sozinha há 20 anos e não lhe resta nenhum parente nesta
cidade, o Rio de Janeiro.
Pensa, em seguida, em seu envelhecimento: passa dos 60 e faz tempo desistiu dos homens.
Isso pode doer, às vezes. Principalmente de madrugada, no escuro.
E dói muito mais quando falta dinheiro. Vive de uma aposentadoria miserável e de alguns
trabalhos de digitação. Daqui a algum tempo, o que será dela?
E já houve a Doença, três anos atrás. Foi operada, não ficou nenhuma seqüela. Mas
continua fazendo exames de controle.
O que será dela, torna a pensar, no escuro.
***
Sim, o seu envelhecimento. Tenta disfarçar, pinta o
cabelo regularmente, só usa roupas esportivas, jovens.
Mas, já faz algum tempo, as pessoas a chamam inevitavelmente, de "senhora", às
vezes até com um ar de deferência.
E, embora ainda não tenha alcançado os exigidos 65 anos, começou a entrar na fila dos
idosos, nos bancos. Que lhe foi indicada, um dia, por um cretino bem-intencionado.
Levou um susto mas, com humildade, entrou - a fila era a mais curta. E, dali em diante,
sem constrangimento, passou a procurá-la.
Quando pensa na imensidão do seu passado é que tem verdadeira consciência da velhice.
Tanta coisa já lhe aconteceu!
De muitas, esqueceu. De outras, sempre lembrará. Como, por exemplo, dos seus casamentos
desfeitos.
Depois do primeiro, os outros acabam naturalmente, aprendeu. Não há nada que prenda um
segundo casamento sem filhos.
Depois do terceiro, desistiu de acreditar em casamento. O que, para ela, significou uma
mudança radical de cabeça.
Apesar das aparências em contrário, sua grande crença, no fundo, era no "amor de
salvação". Como uma fé.
Mas, tendo percebido que esse amor nunca viria, precisou salvar-se sozinha ou, pelo menos,
sobreviver sozinha.
Até hoje se vira.
***
Cedeu aos namoros rápidos, para ela humilhantes.
Interromper a relação nunca mais foi decisão sua. A certa altura, era sempre deixada de
lado, o outro sumia de repente.
Tornou-se, exteriormente, uma "audaciosa descasada dos anos 70-80." Agora já
sabe, o analista revelou: o motivo de tudo era seu Trauma Sexual Infantil. Por trás da
audácia, a dolorosa carência.
Estava desvendado o seu Mistério, tudo não passava de uma incurável frigidez.
***
Dos anos 90 em diante, ficou muito cansada. Ou
talvez estivesse, enfim, muito calma. Era o momento, sentiu, de Desistir de Homem.
Um momento que chega para toda mulher sozinha e, quem sabe, para as casadas também, de
outra maneira.
Em seu caso, foi sem dor. Com a mesma paz com que, certo dia, parou de menstruar.
Quem sabe conseguirá morrer assim.
***
Bem, essa criatura tem, pelo menos, algo que muita
gente ainda consideraria um "privilégio". Mora num apartamento próprio, na
Zona Sul do Rio de Janeiro.
Um apartamento comprado às custas de sucessivos financiamentos, ao longo de uma vida
inteira. Mas agora é seu.
Pequeno, mas com varanda e vista. Um luxo. Só que fica em andar alto e lá venta muito.
Quando há vento, ela ouve um uivo.
***
Depois da operação para extirpar a Doença, teve
uma recuperação dolorosa, mas foi apenas isso. Não sentiu mais nada.
Sente-se curada. Por recomendação do médico, foi a um psiquiatra, que lhe passou um
tranqüilizante e um indutor do sono, para ela poder dormir.
Ficou quase calma. Mas, quanto ao sono, o resultado não foi inteiramente satisfatório.
Dorme, sim, durante algumas horas, mas jamais até de manhã.
Acorda todos os dias na madrugada ainda escura. É seu momento mais difícil, abrir os
olhos às quatro horas da manhã. Como se acordasse de um pesadelo. Susto e escuridão.
***
Alguns minutos depois, melhora. E então se levanta
para cumprir sua rotina. Que começa com a ida para a cozinha, a fim de lavar alguma
louça que sempre deixa na pia sem limpar.
Usa sempre a água quente, é um dos seus confortos. Além de escuras, as madrugadas em
seu bairro são quase sempre frias.
Lava a xícara para o chá deixou de tomar café e também a pequena panela
onde faz seu mingau, em geral de aveia.
E lava ainda o prato onde põe sempre uma fruta para comer.
Ultimamente, até pensa até que não morrerá tão cedo. Quando doente, achava que
sobreviveria, no máximo, um ou dois anos.
***
O que vem a seguir também está programado: tomar
banho, calçar seus tênis, dar uma caminhada, ir ao supermercado. Usa o velho carro que
ainda mantém, do tipo popular.
À tarde, trabalha no computador. E à noite, atualmente, nunca sai. Tem poucos amigos e
sua família mora toda em outra cidade e não gostam dela. Sim, por causa de sua juventude
livre e até feliz.
Que nenhum deles teve e pela qual jamais a perdoarão.
***
Imagina a inveja que sentiam dela, quando era bonita
e tinha muitos homens, viajava para toda parte e vivia, aparentemente, com grande
intensidade.
Claro, por trás de tudo havia a Dor, mas eles não sabiam.
De qualquer forma, existia muita coisa boa em sua vida, naquele tempo, conclui agora.
Jovem, jamais se acharia capaz de viver do jeito como vive, atualmente.
Mas está suportando.
Sim, estranhamente para ela, está suportando.
Tem até suas pequenas alegrias. Gosta de usar prato combinando com a xícara, por
exemplo. Fica alegre quando, na hora do chá, vê que acertou com a xícara e o prato
iguais.
Claro que passou por coisas horríveis. Mas, com os tranqüilizantes, está dando para
levar.
***
Hoje, acordou mais cedo. Acabou de tomar seu chá e
ainda não clareou. Inesperadamente, faz mais frio. Está com três suéteres, uns por
cima dos outros. Mas ainda sente frio.
Volta para a cama e cobre as pernas, com a manta de lã.
E fica esperando. Daqui a pouco clareia, pensa.
Não será mais insuportável.
Mas lhe ocorre, de repente - pensamento terrível - que ninguém lamentaria de verdade, se
ela morresse agora.
Como chegou a esse ponto? A pergunta fica sem resposta.
Logo virá a claridade, diz para si mesma. E, com a claridade, tudo parece bem melhor,
sabe por experiência própria.
***
Só que, de repente ah, meu Deus, não
esperava por isso começa a ventar.
Em seu apartamento, cheio de portas de vidro que dão para pequenas varandas, o vento soa
como um uivo.
São longos uivos - e ainda está escuro.
Fica ouvindo. E, pouco depois, começa a rezar.
Reza em voz alta um Pai Nosso e uma Ave Maria.
Talvez o vento pare, talvez clareie.
Mas o vento não pára e a escuridão continua.
E, pela primeira vez, depois daquela operação, pensa que talvez o pior não seja a
idéia de morrer.
Talvez o pior seja a idéia de continuar vivendo.
***
Claro que não vai agüentar muito tempo mais,
conclui.
De repente, tem a certeza de que não dá para esperar.
Ela se antecipará.