Sebastião Nunes - o radical avança

 

 

OH QUE ESTÚPIDO FUI!

Quebrei minha panelinha literária
no dia em que nasci.
Voaram cacas, caquinhos e cagões
fedendo como nunca vi.

Desde então sou poeta solitário
corajoso, forte e temerário
orgulhoso pra caralho
mas no borralho.

Quem me empresta nova panelinha?
Quero que me puxem o saco.
Exijo ser chamado gênio.
Preciso cagar regras.

Ai que saudades de uma cagadinha
na minha literária panelinha.

FÓRCEPS, para extrair idéias profundas de poetas superficiais

 

CESTA DE LIXO, para material poético. Grande capacidade


 

ARTE POÉTECA

Bem no fundo da biblioteca
morava horrível poeta mongolóide.
Rimava fungo com resmungo
mofo com estofo
podridão com escuridão.
Guardava seus poemas numa lata velha.
Esquentava a sopa numa lata velha.
Amava, quando amava, uma puta velha.

 

LUPA, para examinar talentos minúsculos

SERINGA, para injeções de talento poético


 

PARÓDIA ANTIQUÍSSIMA N0 2

À MODA DE AUGUST DOS ANJS

Vamos supor q a morte al fin te alcanc
e te mate à moda dela: mortalment.
Vamos supor al fin q a morte em vida
te roera já cabel, corp e ment.
Estavas velho, lerd, bobo e cabeçud.
Sonhavas no entant vãos amores.
Supunhas-te famoso e consagrad.
Gozavas de estima, tédio e sono.
Pois bê: agora morto e entre flors
esterco fedorento a derreter-se
inda teimas em gozar um pouc a fam.
Mas tudo se resume então na press.
Mas tudo se resume então no ufa!
Aos vivs as batats. Ao morto: lhufas!

tiaonunes-navalha.gif (6213 bytes)NAVALHA ROMBUDA, para barbear poemas prolixos

 

 

tiaonunes-levi09.gif (12701 bytes)ENFISEMA
PULMONAR

 

tiaonunes-levi08.gif (11850 bytes)         tiaonunes-levix06.gif (14260 bytes)
(Elegia rupestre para Levi Araújo, o menor dos Nunes)

Levi Araújo Nunes nasceu no Serro, MG, de onde fugiu aos 15 anos, depois de uma briga a tiros na qual feriu (ou matou) alguém, se minha avó Antoninha não estava delirando. Participou de duas ou três badernas militares por idealismo, gosto de aventura e falta do que fazer. Me ensinou que preguiça e irresponsabilidade são grandes virtudes, mas exigem coragem e astúcia. Sempre quis que eu escrevesse como Guerra Junqueiro, o único poeta que admirava. Casou-se um dia antes da morte de minha avó Etelvina e, com as 4 vacas de herança, abriu uma venda em Bocaiúva, MG, onde asilou para sempre.

Duas e meia da tarde. 10 de junho de 1984.
Mãos secas. Pés juntos. Algodoais no nariz.
Véu negro sobre o rosto: tímido noivo de vermes.
Rotineira terra roxa sobre o cadáver de cera.

Vai embora Lei e seus 40 quilos de osso.
Vai embora o enfisema: missão cumprida.
Vão embora pescarias. Cigarros de palha. Tosses.
Revólver na cintura. Carteados. O olho de cobra.

O coveiro sua e pragueja: antes ele do que eu.
Foi tudo muito rápido. Silencioso. Sem queixas.
1 metro e 58 e nunca confessor nada. Nem a padre.
Nunca pediu nada. Nunca aceitou nada. Nem de Deus.

Tão pequeno para um orgulho tão grande.
Feroz como todos os pequenos. Duro como diamante.
Até que finalmente tudo passou – e nada.
Que diferença faz? Séculos ou mitos ou segundos.
Grandes ilusões rastejam entre lagartixas.

E então é verdade: então a vida não passa disto:
um sopro: um cisco no olho: um sopro: e nada.

 


 

tiaonunes-hans01.gif (23063 bytes)TUBERCULOSE
GALOPANTE

(Lengalenga dramática sobre Ascânio Lopes, o romântico verde)

Ascânio Lopes foi o promissor-poeta-tuberculoso-aos-20-anos do Grupo Verde, de Cataguases, MG, que fez grande sucesso na fase porra louca do Modernismo. Os dados sexográficos e psicológicos saíram da revista VERDE (reeditada por José Mindlin) e do livro ASCÂNIO LOPES, de Delson Gonçalves Ferreira. As ilustrações (criadas em 1529, exatamente 400 anos antes da morte de Ascânio) são de Hans Holbein, o Moço, e formam com o texto uma suruba alegórica entre poesia e morte, dois temas infinitamente paralelos e eternamente concêntricos. O poema é dedicado a João Batista Jorge, poeta de três livros e 30 anos, morto a facadas quando saía de um baile, na madrugada de 18 de dezembro de 1983.

COMEÇA O FILME MUDO.
Cataguases. Minas Gerais. 9 de janeiro de 1929.
Sábado. Dia de baile. 10 horas da noite.
O poeta Ascânio Lopes vai morrer amanhã.

O VERMELHO E O NEGRO.
Terno preto. Camisa branca. Gravata preta.
40 graus de febre. Meio litro de cognac no sangue.
O poeta Ascânio Lopes está pronto pro baile.

OH RIO POMBA QUE PASSAIS.
Na beira do rio o poeta pára.
Na beira do rio o poeta vomita.
vomita uma feijoada completa de pulmões e sangue.

HAMLET VAI EM FRENTE.
Troco a roupa? Vou pra cama? Encho a cara?
Estupro uma menina? Mato um bêbado? Vou pra zona?
Mas o século começa e já vou saindo.

TROCA TROCA TROCA.
Sonhei um Rimbaud modernista entre araras e tamanduás.
Pensei um Castralves bêbado e futurista.
E fisso nisso: pedaços de bofe grudados na camisa.

TENHO 22 ANOS.
Dentro de uma hora começa o baile.
Alegres contorções alegres de bucetas alegres.
Tensas piruetas tensas de caralhos tentos.
Mães de mãos entrelaçadas estrangulando maridos.

RETROSPECTIVA.
Tudo bem. Então é o fim. Vamos ao testamento:
lego aos urubus a carniça deste pulmão rasgado.

 

    tiaonunes-gord09.gif (16307 bytes)CIRROSE HEPÁTICA

(Vida e obra de Elias Augusto, o maldito pintor de Deus)

Elias Augusto de Deus foi o grande pintor doidão de minha geração. Suas loucuras estão espalhadas por aí, ninguém sabe onde. Elias tinha uma força que só o desespero pode dar (foi irmão de sangue de Van Gogh e Gauguin), desespero que o obrigou a freqüentes fugas para o interior de Minas, onde garimpava num rio solitário para se livrar dos pesadelos e da morte. Esss batismos eróticos, em águas faiscantes de sonho e de nada, salvaram sua vida, mas obscureceram para sempre sua delirante percepção criativa.

As mulheres de Elias só tinham sexo.
Imensas bucetas escancaradas e palpitantes.
Até os poros se arreganhavam ávidos.
(Como crateras de uma lua erótica.
Como orgasmos de uma musa ninfo.)
Elias pintava como se um bicho parindo.
Pinga. Pico. Fumo. Brilho. Bodes infinitos.
Elias entrava no inferno pela porta dos fundos.
Depósito de presos. Bairro Lagoinha. Belo Horizonte.
Assassinos. Ladrões. Loucos. Bêbados. Otários.
Elias estava em casa e entre seus irmãos.
Os polícias de Elias tinham sede de sangue.
Os polícias de Elias matavam a fome na tortura.
Toscos. Rudes. Esquemáticos. Repelentes.
Os polícias de Elias sumiram nos porões da polícia.
Primeira e última exposição fechada antes de abrir.
Tinta. Tela. Fumo. Pinga. Pó. Sete chaves na porta.
Elias só tinha um pau torto e punhetas fulgurantes.
Elias não perdoava nada e ninguém.
O maldito pintor de Deus esporrava na tela.
Uma garrafa de pinta pagava bem um quadro.
Um pê-efe na zona pagavam bem um quadro.
Um baseado magrelo pagava bem um quadro.
Uma tela branca pagava bem um quadro.
Espasmos cerebrais de louco a troco de quase nada.


 

NOVA TROPICÁLIA 
O, de ORIGINALIDADE. Ex.: "Lá tudo parece andar a caminho da prosperidade, salvo, é curioso notar, aquilo que certamente mais deveria sentir a influência do progresso – os habitantes." CHARLES DARWIN

Onças, antas, tamanduás.
Sagüis, capivaras, tatus.
Preás, ariranhas e caititus.
Todos tomando nos cus.
Bagres, traíras, piraíbas.
Lambaris, piaus, pirarucus.
Piranhas, corvinas e pacus.
Todos tomando nos cus.
Sapos, jacarés e calangos.
Corais, jararacas, urutus.
Todos tomando nos cus.
Sabiás, curiós e sofrês.
Sacis, caaporas, jecas-tatus.
Todos tomando nos cus

tiaonunes-macaco.gif (8290 bytes)

 

 

tiaonunes-sorridi.gif (13774 bytes)SANTA CASA

A, de AÇÃO. Ex.: "Cagar é um ato político." GLAUCO MATTOSO

A mulher amarela geme na ambulância.
O menino de olho furado come uma banana.
O homem barrigudo vomita no pé da árvore.
O casal de namorados desdentado ri.
A velha esquelética caga na roupa.
O vendedor de laranjas como uma laranja.
O guarda olha as pernas da enfermeira.
O garoto paralítico tropeça na escada.
O médico entrou no carro e caiu fora.

 

 

tiaonunes-nubia.gif (11322 bytes)BOLERO PARA NÚBIA LAFAYETTE

N, de NOVIDADE. Ex.: "Então está certo: se não há o que contar, não se conta. Ou então se conta o que não há para contar." SÉRGIO SANT’ANNA

Na mesa do bar tem uma garrafa aberta.
Na garrafa tem um pouco de cerveja.
Em cima da mesa tem um copo quase vazio.
Em volta da mesa tem quatro cadeiras.
Três cadeiras estão vazias.
(O bar também está quase vazio.)
Na outra cadeira está sentado um homem.
Um homem sofrendo como um filho da puta.


 

ERÓTICA BATALHA

Tua latejante buceta palpitante.
Meu amargo cacete parfilado.
Ovos batem continência à beira do saco.
Como um guerreiro de merda
o cu recua ante a dura ofensiva.
Grandes e pequenos lábios
batem palmas e riem.
Meu cacete é a bandeira nacional.
A guerra é santa e eu avanço.

tiaonunes-perna06.gif (8314 bytes) tiaonunes-perna18.gif (8684 bytes)

 

 

Sebastião Nunes, Sebastunes Nião, Sebunes Nastião, Bastião Nu, Sabião Bestunes, etc, escritor, editor e artista gráfico.Como poeta, tem onze livros de poesia experimental editados entre 1968/89,
reunidos nos dois volumes da "Antologia Mamaluca e Poesia Inédita". Ficcionista, com três livros: "Somos Todos Assassinos" (edições para subscritores pela Dubolso, 80, 81, 95, e uma edição comercial pela Editora
Altana, de S. Paulo, 2000); "Decálogo da classe média" (Dubolso, 1998), enviado a 120 intelectuais de todo o país dentro de um pequeno caixão de defunto; "História do Brasil - Estudos sobre guerrilha cultural e estética de provocaçam" (edição para subscritores em 1991 e edição comercial em 2000, pela Editora Altana, de S. Paulo); Ensaísta, tem um livro pela Dubolso, em 1996: "Sacanagem Pura", ensaios sacanas sobre publicidade; e uma apropriação lúcido-satírica do caderno "Mais!", da Folha de S. Paulo, 1996, enviada a 450 personalidades da cultura brasileira.
Autor de três livros infanto-juvenis pela RHJ, de Belo Horizonte (98), e
quatro pela Dubolsinho (2000), assinando Sebastião Nuvens.
Editou, pela Dubolso, mais de 50 autores, especialmente de poesia e prosa
experimental, desde 1980. Entre eles, Carlos Ávila, Rita Espeschit, Glauco
Mattoso, Bernardo Guimarães (O Elixir do Pajé), Otávio Ramos, Romério
Rômulo, Thais Guimarães, Roberto de Carvalho e vários outros.
Entre obras sobre e a partir de seu trabalho, destacam-se:
"Antologia Mamaluca", espetáculo do Grupo Giramundo, com direção de Álvaro
Apocalypse; "Lugares", música de Fernando e Robertinho Brant, incluída no CD de mesmo título; "Provocaçam", vídeo de Anna Flávia Salles Horta, Rodolfo Magalhães,
Cristiane Zaggo e Ricardo Aleixo e "Um fascículo mamaluco", organizado por Carlos Augusto Novais e Luiz Dulci, volume 5 da série "Temporada de poesia", em 10 volumes, comemorando o centenário de Belo Horizonte.

 

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