Guilherme Bergamini 
Tonico Mercador

Tratado oblíquo da solidão

  1   
(solidão)  
sol sem luz  
quando se está só e  
(avassaladoramente)  
 
mal acompanhado.

  (solidão)
 
dia sem sol  
 
quando se está só  
 
sem o próprio corpo  
 
(sua bengala).
 

(solidão)  
sombra do sol quando se está só  
e são  (no mundo)  
mudo e morto.

2
comparada à minha, a solidão dos outros
é cortina opaca de banheiro
rosa murcha entre seios lembrança
apagada em lençóis
de gelo.

minha solidão é como um deus
sem cara sem sexo sem tamanho
em um pequeno mundo efêmero.

3

minha solidão é maior do que a (solidão) da minha mulher
do que a (solidão) dos meus filhos do que a (solidão)
dos que ainda não nasceram
 

minha solidão é maior do que
a (solidão) dos amigos que deixei de beijar
(enquanto eram amigos) maior do que a (solidão) dos inimigos
que deixei de matar
(enquanto eram vivos)

minha solidão é a
(solidão) dos que estão suspensos
entre a lembrança e o esquecimento
sem pontes tapetes arames fios de navalha (nem isso).

6

solidão apavora (ou inspira?)
solidão devora e vomita

solidão enregela (ou dinamita?)
solidão é escuro e ausência

solidão é silêncio (ou abismo?)
solidão é desejo e desolação

solidão é espera (ou suicídio?)
solidão é avesso e abandono

solidão é pergunta (ou escolha?)
solidão é falta e disfarce

solidão é leito seco
de um rio seco rio sem leito
ou leito sem rio
sem corpos úmidos deitados nele?

11
dizem que a solidão
é fumaça de cigarro
numa sala muda

       
mulher nua 
e seu batom 
abandonados no tapete  

         luz de abajur 
tão distante que a 
mão não alcança
 
      homem e seu destino
na escuridão 
da página em branco.

 

23

                            meus filhos longe
                  
         dos meus abraços
                  
         (longe)
                  
         dos meus olhos
                  
         envelhecendo longe
                  
         de mim
                  
         dos meus rios
                  
         florestas
                  
         mares ladeiras
                  
         bares
                  
         cafés da manhã 

                            eu tão longe de mim
                  
         dos meus sonhos
                  
         da lua (imóvel)
                  
         na moldura da janela
                  
         da sirene da polícia
                 
         do motor da cidade 

                            eu só
                  
         (tão longe)
                  
         a música esculpindo (cenários)
                  
         memórias

                  
         (totens) para a saudade longínqua.


Tonico Mercador, poeta e jornalista, autor de diversos
livros, entre eles Perversos. tmercador@mac.com