ilustração de Julio Saens

 

Coração de alcachofra

Tuti Maioli Neto

 Tremeu como vara verde , em pleno salão.
Retocas, bem, os lápis?
Me passe as luvas, coração de veludo.
A gataria era toda ali, em carne e pêlos.
Será possível que Jandira virou audaciosa?
Capivara dos diabos! Trancetê lá, sumiu de fininho.
Estátuas que se movam, que te toco despudorado.
Finesses que se fodam.
Ultrapassados os limites e a velocidade, aumentei como
pude o volume do rádio.
Não era a tua voz movida a aquecedor?
Brasas
nas saias, darling.
Desta vez, tramavas.
Luz de faróis sobre a baía da Guanabara, que fosse mais
deslavada e cabaré.
Trapaças, meu coração? Puras cadelagens.
Bel, que se saiba, não brinca em serviço. Poderosas
armas. Ao menos que se pudessem, seriam fatais.
Lingeries aos teus pés, se desejos são.
Não me custa nada, te juro.
Chama-me cavala e deusa.
Palavras em sela.
Em uma correspondência, me disse: alma de Tóquio e
pele de gueixa. Mais certeira, impossível.
Não é que vacilou quando deixou a caixinha de batom
escorregar mão afora?
As chaves, ao menos, eram sob controle.
Vocês podem imaginar mesmo longe, o mínimo de
frisson?
Moveu-se à garça, seguindo os conselhos da vovó.
Dos baús, te digo, tirou tudo que era possível.
Escoltas eram previstas?
Estratégias de abalar corações em Antártica.
Gira a esquerda, então. Não sei se posso resistir a tanta
felinidade.
Os deuses que me perdoem, mas bárbara visigoda,
ataquei.

 

Tuti Maioli Neto nasceu em Jacarezinho, Paraná. Está na Europa desde 88, primeiro Suíça, alemã e italiana, e em 90, Itália, sempre na Lombardia. É jornalista, poeta e fotógrafo.Traduziu algumas poesias de Paulo Leminski pra  revista italiana  "mayakovski".

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