A escrava sai da senzala para o quarto do ex-seminarista
A 1.ª GERAÇÃO DO POETA
O ex-seminarista tem Deus no céu e algumas posses
na
Terra
todos os dias ele ajuda a celebrar a missa das seis
o rosto do ex-seminarista oculta dúvidas transcendentais
A escrava tem cheiro de terra e suor
sem pai nem mãe a sua tragédia está na sombra que
que
carrega na pele
a escrava é filha da puta
A 2.ª GERAÇÃO DO POETA
João Afonso herdou a benção Divina e a agonia da
senzala
era mulato bonito de Rio Pomba
seus ossos estão descansando em paz
Rita Marcolina fumava cigarro de palha e bordava
usava chicote e espingarda para tirar dúvidas com os
vizinhos
passou seus últimos dias cuidando do pombal dos netos
A 3.ª GERAÇÃO DO POETA
Henrique saiu com os irmãos Avelino, Afonso e
Franklin para matar o
delegado de Rio Pomba
era Fiscal de Rendas do Estado
levou um circo para casa e teve duas mulheres: a
primeira foi o forno, a segunda o fogão
Margarida teve seis filhos e um olhar submisso
entre um parto e outro acompanhava o marido em
suas
viagens
morreu de febre espanhola depois de parir o último filho
Zuzu era de uma família que alugava navio para ir à
Europa
muito jovem vendeu todas as jóias para pagar as dívidas
do
marido
na época das Missões arrecadava dinheiro para a
construção
do asilo onde mora hoje
A 4.ª GERAÇÃO DO POETA
Henrique chegou com seus poemas para assombrar a
capital
bem comportada
o poeta passou uma semana na solitária
tinha 26 anos quando pediu à madrasta para abrir a
janela porque queria ver o mundo antes de
morrer
Aparecida não se casou
desdobrou o seu dia a dia para irmãos e sobrinhos
saiu da Capital para garimpar as suas origens submersas
em
R io Pomba
Saulo começou a vida abrindo uma loja de sapatos sem
ter
sapatos para vender
como industrial do mármore talhou o seu caminho na
política
em 1969 a Revolução cassou os seus direitos políticos
por
dez anos
Coríntia sabia como reduzir o universo ao espaço de
uma
bombonière
com água e açucar queria curar a costela deslocada do
filho
fumava sete maços de Hollywood sem filtro quando morreu
Dimitrief saiu de casa para fazer a revolução no Rio
dividiu-se nas prisões com os companheiros operários,
burgueses
e várias paixões
seu intinerário é uma aventura em busca da solidariedade
humana
Bráulio foi o único da família a fazer um curso superior
trocou o mundo por uma mulher, três filhos e uma casa
na
rua Pitangueiras
pensava no planeta Terra movido dialeticamente por
forças
populares
Maria Augusta era uma das moças mais bonitas da
Floresta
tocava piano, violão, fazia Baba-de-moça e Ovos-queimados
foi feliz para sempre até o marido morrer de enfarte
A 5.ª GERAÇÃO DO POETA
A ditadura já havia caído quando o poeta nasceu no
Hospital
da Previdência
aos 12 anos teve sua primeira como alcoólica
o poeta troca a poesia por um manifesto em nome do
povo
brasileiro
A mulher do poeta é do segundo decanato de Aquário
ela traz no corpo o elo de ligação com todas as forças
celestes
no seu ventre estão os átomos da próxima geração do
poeta
A 6.ª GERAÇÃO DO POETA
Carolina tem na planta dos pés todos os caminhos
do
mundo
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