Tanto
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A professora Vera Lúcia elaborou uma extensa pesquisa em literatura oral, especialmente com os contadores de casos do Vale, recolhendo narrativas populares em sua linguagem "original" e depois transcrevendo-as para a língua dita culta. Um trabalho de sensibilidade, com rica análise das origens e formação social da região, que resultou no livro "O Artesão da memória no Vale do Jequitinhonha", do qual retiramos os trechos que servem como apresentação e valorização de certos elementos da cultura oral popular, aqui muito bem representadas pelos causos de Seu Chico, Tadeu Martins e Seu Américo. |
O
conto maravilhoso, há séculos transmitido oralmente, exerce uma
função social. Seu enredo oferece conselhos, auxílios e, preenchendo
carências, satisfaz expectativas dos que lêem e dos que não lêem. Em sua
ação, o absurdo e a fantasia não são gratuitos, nem desprovidos de
sentidos, porque, ao contrariar as normas do cotidiano e abandonar-se
às fantasias, o enredo domina o desagradável da realidade e deixa entrever
aos ouvidos e leitores formas mais satisfatórias de vida e o modo de alcançá-las.
Essas narrativas tentam exorcizar as
dificuldades inseridas num
determinado contexto e terminam por se transformar nos necessários
mecanismos de compensação das esperanças adiadas, dos fracassos da
comunidade. Ainda hoje, o universo maravilhoso, em suas inúmeras variações,
acalenta crianças e mesmo adultos, criando-lhes os sonhos imprescindíveis ao
combate dos agitados pesadelos da vida moderna. A sua magia é de algum modo
libertadora, na medida em que coloca a possibilidade de se passarem as coisas na
realidade, conforme o desejo daqueles que se sentem impotentes e excluídos.
Para isso o natural e o sobrenatural coexistem pacificamente, idealizando meios
de sobrevivência às hostilidades do existir. As multifaces das cenas e das personagens
permitem o prazer, gratificando os indivíduos, que nelas encontram a "única
possiblidade
que se tem de estarmos seguros de que deixou de existir a imoralidade da realidade".
s casos que escutamos, no Vale do Jequitinhonha, mesclam os contos
universais com os mitos, com as características da região, para que,
nessas transformações, se expressem os desejos dos grupos que ali vivem.
As narrativas são reelaboradas, recontadas conforme o modo particular
de ver agir daquele que narra. E nunca são repetidas, assim como
anteriormente foram ouvidas; modificam-se, sofrem variações de acordo
com espaço, o tempo e a experiência de seu contador.
Entre os fantasmas que povoam o imaginário desse contos, o sistema
educacional e seus objetivos representam o mais sério antagonista. Na
conversa com os contadores, infere-se o seu medo diante do número
crescente de escolas, inquietação que termina por aparecer na temática
dos contos, influenciada por esse avanço que retira dos contadores o
antigo papel de mestres e os força a conquistar os meios de manter
prestígio de proprietários dos conhecimentos necessários à vivência dos
indivíduos no local.
O contorno da questão pode ser delineado pela leitura de alguns
casos, como os contados por Seu Américo Gonçalves, de Turmalina. Há uma
preocupação lingüística na formulação de sua narrativa: ao utilizar
recursos poéticos, o contador pretende demostrar a sua competência e o
seu bom desempenho no manejo da língua.
O conto faz uma reflexão sobre as frustações do meio em
que é
produzido e, mais ainda, compensa a comunidade, através da identificação
com os heróis, do desasjustamento, da inadaptação às estruturas da
realidade, corrigindo de forma prazerosa as disparidades sociais.
O conto popular, fenômeno vivo de ordem ideológica, torna-se forma de
reflexão daqueles que se sentem responsáveis pelos hábitos de uma
comunidade e, enquanto guias, buscam adequar o grupo às mudanças
sociais, aos novos valores, sem deixar morrer os comportamentos da
tradição. Suas considerações incidem na obsessiva vontade de que,
admitindo as formas novas de viver, se crie uma sistemática de relações
onde o velho continue existindo junto ao novo, seja de forma paralela,
seja dando lugar para associações de caráter híbrido, quase impossíveis
de acontecer na realidade, mas plenamente realizáveis na fantasia
coletiva.
Os contos orais exercem em seu contexto a função social de ensinar às
gerações de um modo de conciliação do muito novo e do extremamente
antigo, mesmo arcaico, ideando uma colagem que sugira os caminhos do que
se pensa moderno sem o abandono do passado. Essas narrativas querem
mostrar uma possibilidade aceitável de se incorporar, nos hábitos da
comunidade, características diversas daquelas em que se originaram e,
nessa maleabilidade, realizar a continuidade com os sistemas da
tradição.
* Professora, chefe do Departamento de Letras da PUC-MINAS.
leia os causos: